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Secret Life of Materials

As tensões que atravessam as obras aqui reunidas se movem de tal maneira que é quase possível ouvi-las. São muitos, talvez em demasia, os dilemas de que precisam dar conta. Porém para um artista, hoje, parece não haver alternativa a não ser se armar de coragem e tentar atravessar estes pântanos. Tiago Mestre e Flávia Vieira, parceiros no projeto Secret Life of Materials, tomam as precauções possíveis para não cair nas armadilhas de sempre. As forças que buscam direcioná-los de volta ao ponto de partida são muitas, mas eles as vão contornando com inteligência e certa elegância. Aos poucos conseguem abrir caminho para que algumas possibilidades se apresentem, para o espectador, claro, mas também para os próprios trabalhos, como provam Ensaio, Magnetic Yellow e a obra que dá título à mostra.

Cada uma delas está em fricção com passado e futuro, numa mesma diagonal que atravessa tanto seus mecanismos de construção como seus desdobramentos no tempo e no espaço. Neste sentido, o conjunto formado por Secret Life of Materials tem um “partido”, no sentido arquitetônico do termo, e reivindica um lugar nesta história.

Mas que história? Da arte, claro, mas especialmente na dos modos de fazer e perceber a arte, e também na maneira como ela se apresenta, no espaço expositivo, diante do público. Para Tiago e Flávia, este lugar é conflagrado, e este espectador, não é mais um ingênuo. Informado, não pode ter seu conhecimento subestimado (um dos erros fatais da arte atual e seus discursos), pois assim como os artistas se habitou a correr alguns riscos controlados. Secret Life of Materials abre espaço para um trânsito de mão dupla, em que somos colocados não em uma condição passiva de meros observadores, mas em que tem suas prerrogativas reconfiguradas pela exposição.

As dúvidas de Secret Life of Materials podem parecer comuns, mas nunca banais, no que se revela outra de suas escolhas de ordem ética, por não traírem suas origens nem os percursos que se desdobram a partir daí.

Comentar sobre o espaço expositivo, preenchê-lo com obras ou arriscar uma saída negociada? Como escolher uma moldura sem que ela se sobreponha ao próprio conteúdo?

Questões que parecem antigas, mas das quais não conseguimos nos livrar. Há muito tempo não existem mais soluções evidentes, ou simplesmente “soluções”, e no entanto os artistas não podem parar de produzir. Secret Life of Materials parece também se perguntar a cada instante, antes de dar o próximo passo: como manter a auto-crítica operante sem resvalar para uma posição cínica e hipócrita, aquela em que se encontram artistas como Liam Gillick, e que determinou certo modelo para a arte contemporânea recente? Um lugar em que não há diferenciação possível entre crítica e adesão, configurando uma espécie de armadilha, talvez inevitável, para onde nos dirigimos resignados. Este risco Tiago Mestre e Flávia Vieira não correm, que é o de obras que pretendem exemplificar as decorrências ideológicas e estéticas da burocracia no circuito da arte, sem que seja possível distinguir esta arte do que ela supostamente ataca.

Deste modo, o mais transparente possível, sem ser “naif”, este conjunto de obras e a maneira como são arranjadas entre si é ainda uma maneira de ampliar o próprio entendimento da palavra “material”. Parece evidente que se trata aqui de um entendimento alargado do termo, já que, para a dupla de artistas, matéria é também o próprio espaço, o mobiliário, soluções de displays, além da posição e do papel do espectador, seu

repertório e seus desejos projetados sobre a exposição, o que constrói uma espécie de máquina de retroalimentação que termina por lançar dúvidas sobre seus próprios estatutos.

A fronteira que separa os estados irônicos dos melancólicos é nebulosa, e este é outro risco que o trabalho de Tiago Mestre e Flávia Vieira não se incomoda de correr – ao contrário, parece ir em busca dele. Obviamente não lhes falta ambição e segurança, porém toda sua “atitude” de pouco valeria se não “provassem do seu próprio remédio”, ou seja, se não se permitissem ser vítimas das mesmas escolhas que afinal são parte integrantes de seu caráter.

Fernando Oliva

 

Speech: Há tanto que eu queria te dizer

É tão absurdo que talvez seja a mais pura verdade. Dizem que o monumento mais antigo de São Paulo – o obelisco da Ladeira da Memória – tem uma origem confusa: ninguém tem certeza do que exatamente devemos lembrar olhando para ele. Numa cidade construída sempre visando o futuro, a primeira lembrança foi esquecida e transformou-se em uma homenagem, veja só, à memória. É daqueles paradoxos que provocam um sorriso involuntário e acabam fazendo pensar sobre os limites da associação entre nomes, informações, coisas e discursos. Enquanto sorrimos, deve sorrir também o obelisco, feliz por estar liberado do motivo provavelmente vil de sua construção e haver se tornado um enigma.

Realizada por Tiago Mestre, artista português residente em São Paulo, a exposição Speech demonstra um interesse especial por essa espécie de sorriso dos objetos. Isso porque a exposição simultaneamente alimenta e frustra as expectativas que lançamos sobre os artefatos culturais. Reunidos em displays expositivos, esculturas, maquetes, objetos, vídeos e pinturas formam um arcabouço de imagens em suspense, à maneira de relíquias pertencentes a alguma civilização extinta.

Não é à toa que a mostra tem início com um objeto encontrado pelo artista. Trata-se de um azulejo de manises fabricado há mais de cinco séculos e pertencente a um lote de azulejos decorativos levado para o sul de Portugal por encomenda da família real no reinado de D. Afonso V. Uma de suas faces pintadas à mão ostenta um elaborado padrão gráfico bicolor, floral nas bordas e geométrico no centro; a outra face, o verso oculto enquanto o azulejo esteve preso à parede, encontra-se rasurada com uma caricatura invulgar, provavelmente produzida pelo artesão de forma espontânea e descompromissada. Entre a aura relativa à idade do azulejo (mais antigo que o descobrimento do Brasil) e a banalidade do rabisco, o objeto flutua em uma zona de indeterminação, na qual planejamento e acaso se insinuam sem uma hierarquia clara.

Outra obra basilar para a exposição é o vídeo At the Museum, animação stop motion em que um boneco de massinha passeia por um espaço expositivo, encontrando e observando obras das mais diversas feições. Tal qual os protagonistas das peças de Samuel Beckett, o personagem do vídeo não consegue escapar de uma mesma rotina repetida muitas vezes: neste caso, aproximar-se de uma obra, encará-la por uma quantidade exata de segundos, retomar seu percurso, aproximar-se de uma obra, encará-la…

A indistinção da atitude do personagem reflete a limitação dos recursos que nós, o público, empregamos na tentativa de circundar e compreender os objetos que nos cercam. Para estar junto com o mundo, dependemos demasiado do olhar. A indefinição semântica das obras de Tiago, entretanto, exige que emprestemos, conscientes ou não, algo mais para a construção de sentidos. É preciso começar exercícios de fabulação. Ou então, é também possível simplesmente caminhar diante dos objetos como o amaldiçoado boneco de massinha, presos na contemplação de artefatos que não compreendemos.

Em todo caso, mais ou menos no centro do espaço, a obra que dá título à mostra explicita algum desejo de comunicação por parte dos objetos reunidos. Speech, a obra, é uma escultura em argila de uma cabeça humanoide sobre um alto pedestal. Na altura dos olhos de um homem adulto, o rosto encolhido parece declamar alguma coisa, sem produzir nenhum som. Há tanto que ele poderia querer dizer, mas permanece emudecido e com a boca bem aberta. Em compensação, dois volumes colocados lado a lado parecem ter descoberto uma espécie de autossuficiência – Romance emparelha uma urna e uma base numa relação dual e recíproca. Em casos como esse, os objetos parecem não precisar mais de nós. Na verdade, somos nós que precisamos deles. Somos nós que precisamos que eles continuem como estão e são, atrelados a algum sentido. Por isso damos nomes para às coisas, por isso inventamos memórias a serem

lembradas por meio delas.

A exposição de Tiago Mestre funciona como uma plataforma para a invenção ou para o esquecimento de pequenas histórias de empatia entre sujeitos e coisas. Comenta assim o princípio motor que leva os homens a construírem obeliscos, memoriais, cemitérios e, claro, museus.  “As estátuas também morrem”, lembrava o cineasta Alain Resnais – permanecem conservadas e expostas em vitrines de museus, mas morrem os homens que lhe emprestavam algum discurso e vida.

Ah, sim, há as pinturas, que podem resistir um pouco a essa leitura. De fato, o que as pinturas de Tiago Mestre mais fazem é resistir a qualquer leitura unitária, revelando-se como espécies de teste dos elementos que compõem a gramática do pintar. Às vezes, são simples demais para que convençam como representações verossímeis do mundo. Noutras, têm caráter excessivamente esquemático para que sejam funcionais como projetos. Em todos os casos, mostram-se carregadas em demasia pela ambiguidade dos objetos circundantes, também fazem suspeitar de leituras estritamente compositivas. Logo à entrada da exposição, um conjunto de monocromos oferecem uma pista de leitura. Sobre papelão, esses elementos são ao mesmo tempo pinturas em tons pastel e testes de cor feitos sem grande minúcia. Grau quase zero da pintura e ferramenta de trabalho para pintores de parede. Estudo da discursividade da arte e ensaio para a construção de algo. Metade museu, metade canteiro de obras, portanto.

É fato que não se escapa incólume da formação como arquiteto. Por mais que o trabalho de Tiago Mestre não se enquadre no perfil recorrente dos arquitetos-artistas fascinados por instalações construtivas site-specific, o artista não deixa de flertar com os procedimentos de esboço arquitetônico – os croquis, as maquetes de estudo e os corpos de prova estão imbuídos em seus gestos e escolhas. Todo esse repertório faz pensar um pouco no que pode ter passado pela cabeça do construtor daquele obelisco mencionado no começo do texto. Ele sabia que estava fazendo o primeiro equipamento urbano não-funcional de uma cidade em crescimento, mas não podia saber que esse mesmo crescimento acabaria por soterrar todo sentido que a retidão de seu monumento pretendia celebrar. Nesta exposição, os objetos já conhecem o seu destino como partes contidas pelo dispositivo expográfico e museográfico que dá corpo à arte; o que elas se contentam em dizer é que há algo, sim, a ser dito.

Paulo Miyada, agosto de 2013

 

Tiago Mestre – Arquitetura e conceitualização

Desenho, pintura, escultura, vídeo são meios de convivialidade no processo que Tiago Mestre vem desenvolvendo nestes últimos anos e, em particular, desde que se radicou em São Paulo.

Não é por acaso que Tiago Mestre é arquiteto. Como tal, cumprindo – através da sua obra plástica e visual – a intencionalidade primordial que a palavra significa. Retrocedendo até a Grécia, onde Arquitetura, juntamente com a Pintura e a Escultura, se consignava nas Artes Construtivas. Por oposicionalidade às Artes Expressivas – triunica choreia, asquais suscitavam grandes emoções no público, as Artes Construtivas eram direcionadas pela mimésis.

O significado da Arquitectura encontrava a origem na própria palavra Arte, arguindo por uma prova filológica que justificava a afirmação: “Não será Arte uma palavra feita com a primeira sílaba de cada uma das duas palavras que foram a palavra architekton? Ar de archos e te de tekton? (…) Ligadas ficam estas duas palavras Arte e architekton  salta aos olhos da cara uma única conclusão: architekton significa o operário-chefe da colectividade.”[1] Dada a função social e humana, que a Arte pretende realizar, quer enquanto artes disciplinares isoladas, quer como Unidade da Arte, Almada reconheceu que “não pode deixar de ser a própria cabeça da colectividade. E é o que é: Arte é a cabeça da colectividade.”[2] Correspondia à necessidade de ser Todo, por ser substantivamente um Todo, visto sob aspecto específico e porque, pela liberdade do artista, configurava a complexidade dos campos adjacentes — das diferentes artes —, constituindo o todo da vida. A Arte começaria onde acabava a definição convencional das Belas-Artes — que não eram sistemas infalíveis —, nomeadamente, na formação dos artistas. A Arte não se esgotava, tampouco se perdia como especialidade organizada.

Séculos atrás, Vasari afirmou que a arquitectura mostrava maior conformidade à natureza, do que a pintura ou a escultura referindo-se, muito em particular, às semelhanças, relativamente ao processo de criação — natura naturans.

Almada Negreiros – autor que aqui chamei para contextualizar a idéia exposta – convocou a etimologia da palavra, de modo a corroborar a sua ascendência arquetípica sobre as demais artes, sugerindo que lhes estásubjacente uma cumplicidade tanto estética quanto cultural.

Na obra de Tiago Mestre encontra-se uma concatenação entre expressões artísticas, que se articulam em coerência e completude. Desde 2009 que esse carácter de sobreposição se consolida e intensifica.

Tal torna-se tanto mais evidente quanto mais criteriosamente atentarmos quer à natureza dos conteúdos temáticos quer ás estratégias de formalização presentes nos trabalhos desenvolvidos:

 

a) de modelos de apresentação/suporte das peças tridimensionais: peanhas, plintos, bases, pedestal;

b) de conteúdos semânticos das obras, na transversalidade de expressões e nas suas tipologias;

c) de procedimentos e processos conceituais e criativos; estratégias e técnicas artísticas…

d) da formação/ensino artístico – no que concerne a prática de exercícios para aquisição de destreza técnica e na tradição do virtuosismo…

 

As formas dos elementos de suporte adquirem autonomia, isentas e alheias aos objetos habitualmente suportados. Convertem-se em peças escultóricas, obrigando o espetador a reconhecer-lhes plasticidade, modelação, volumetria…ou seja, constatando-lhes esteticidade isolada. Idênticas morfologias habitam as cenas modeladas nos vídeos e se plasmam em desenhos e pinturas.

São abordados conteúdos semânticos e iconográficos, contemplando variantes sobre estruturas geométrico-abstratas, paisagens e naturezas-mortas. É a “vida secreta dos materiais”…quer os orgânicos, quer os produzidos…

As estruturas geométrico-abstratas remetem para autorias pictóricas dos 2 lados do atlântico, revendo de forma rigorosa e através de uma metodologia que implica profunda reflexão e acuidade: Mira Schendel, Geraldo de Barros e, por outro lado, Fernando Lanhas e Ângelo de Sousa (entre outros nomes). Acontecem em pinturas e em objetos/esculturas.

As paisagens são vislumbradas através da “sua” janela e reconstruídas, a partir de efabulações estéticas em propósitos bi e tridimensionais. Denotam o conhecimento da tradição, quanto à sua explanação e no respeitante ao escopo que a legitima na cultura ocidental. Ficam resolvidas e abrem novas interrogações relativamente ao seja a sua presença na arte atual.

Os procedimentos e processos conceituais e criativos, mediante os quais se corporalizam os tópicos anteriormente citados, revigoram estratégias e técnicas artísticas. Alinhados/associados – neste questionamento – à desmontagem de práticas e exercícios  (metodologias de ensino artístico) propugnando por uma excelência da tekné e procurando a maior qualificação virtuosa.

 

Numa incidência que se quer concomitante, há a considerar uma fundamentação conceitual que está subjacente: territórios espaciais – incluindo cartografias e mapeamentos; territórios de tempo e memórias – entre o individuado e o societário; ironias alegóricas da historiografia da arte ocidental e abarcando os conhecimentos da arte brasileira (a partir de 2010).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

 

No relativo às temáticas que glosam o espaço, as situações diversificam-se consoante o enfoque que Tiago Mestre direciona. A constituição das camadas espaciais nos vídeos que resultam da modelação animada, instituem uma certa clausura e definição de campo. Nesta definição se inscrevem os tópicos paisagísticos, insinuados em uma maioria de casos de fechamento – de valência intimista, onde se visibiliza a articulação a um mundo interno, consequência da concatenação de áreas e superfícies traduzidas da memória e da lembrança. Space between (título da mostra no Centro Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, 2012, em parceria com Flávia Vieira) integra elementos bidimensionais, objetos e dispositivos audiovisuais que mapeiam, não apenas o espaço específico da galeria (em termos de montagem), quanto são pequeníssimas e sábias pontuações identitárias do autor. Assim, se externaliza uma massa criativa que agrega a praxis e as ideias vividas e refletindo um olhar analítico-crítico sobre referências iconográficas.

Em At the Museum (2011), a memória dos lugares materializa-se em gesso, incluídas personagens que deambulam em museus que sejam imaginários – pensando nas reflexões de André Malraux e interrogando as nuances de compreensão para as obras de arte – e como delas nos apropriamos, falseando os seus fundamentos epistemológicos e/ou gnoseológicos – gerando ilusórias perceções internas e efabulações que instauram remodelações intelectuais. A personagem, algo cabisbaixa e pesarosa, parece transportar o peso da existência contemporânea, talvez buscando uma redenção nesse confronto com as pinturas coloridas que pontuam as paredes do Museu. Assim, essa figura interpela-nos, enquanto espetadores, talez que sejamos personagens verídicas, emergindo da visitação em galerias e locais afins. Nós os espetadores “emancipados” que somos portadores de mitologias, representações e dogmas, mesmo agora, nesta atualidade.

Verifica-se, pois a pregnância da sua remissão em se propulsionar até uma arqueologia sócio-histórica e política, caso da proposta apresentada, em 2009, na XV Bienal de Cerveira:

 

“ “Arqueologia” centra-se no papel das Instituições enquanto representações do Poder institucional. Reflecte sobre o modo como a Arqueologia e a própria História de Arte vinculam uma leitura do passado e do presente dos povos e países e no modo como as instituições (museus, centros culturais e centros de artes) se assumem como mediadores formais de uma Cultura “Oficial” e “Erudita”. (Tiago Mestre)

 

Considere-se a validação de escala, onde a inserção de elementos de pequeno formato, demonstrativa de um olhar detalhista e minucioso. As partículas objetuais pertencem a um posicionamento temporal prospetivo – a ação desenrola-se a partir de um olhar situado em 2509 “…em que a amnésia e um ponto de vista necessariamente subjectivo e parcial apresentarão erros, imprecisões e ambiguidades numa leitura que se apresenta como verdadeira.” (Tiago Mestre) Esta arqueologia do futuro contrasta com a revisão quase iconoclástica da matéria historiográfica sobre o património artístico.

Magnetic yellow (2009, Munique) projeto de vídeo e fotografia, aparece quase adivinatório. O protagonista é esse lápis amarelo que conduz a ação como se fosse uma espécie de maestro. Deambula entre espaço e tempo, visionando-se a afirmatividade da mão do artista, empunhando esse lápis que é condutor de visões e ideias até atingir – talvez – uma dimensão que ultrapassa, decididamente, o intermedial.

O tempo é, pois, trabalhado em múltiplas e outras aceções, sendo de valência primordial, designado no jogo entre instantaneidade e duração em determinadas peças da sua videografia.

Numa aceção de tempo que “quase” congela seres, coisas e arquiteturas, parece estarmos nos domínios de quase naturezas-mortas convertidas de retratos e paisagens também. As formas mostradas em Memória são, a título de exemplo, cortinas (desenhadas e tridimensionalizadas). Mas também, como antes de referiu, Tiago Mestre confronta-nos a elementos simbólicos que participam das encenações museológicas e do display em galerias de arte – Projecto Pedestal (Plataforma Revolver, Lisboa, 2010). Esta concretização, que é uma evidência arquitetural, encontra-se associada a Ornamental Program (2010) e Ornamento #2 (Espaço Avenida, Lisboa, 2010. A plenitude dos elementos tridimensionais é tanto mais exaltada nos desenhos, adquirindo-lhes uma autonomia e exaltação que não é mais da ordem do decorativo: é ontológica, plasmada em austeridade de conceito.

Os dimensionamentos, mais diretamente arquiteturais, residiram em propostas como The Commision –Lund’s Konsthall – SUÉCIA (2011). A planificação de uma imaginária desenhada rigorosamente, expõe a possibilidade de erigir edificações imaginárias e/ou reais que podem (ou não) ausentar o humano. Esta oscilação entre presenças e ausências do humano está metaforizada em diferentes níveis, sendo transversal e nítida, ao longo da obra de Tiago Mestre.

A sua conceitualização é convocativa e, por outro, afirma-se provocativa, atravessando substancializações distintas, emergindo em registros e plasmando-se em qualidades produtivas – continue-se, pois no aguardo, essa duração que espera.

 

Maria de Fátima Lambert

SP, Maio 2013



[1] Almada Negreiros, “Arte e Artistas”, Textos de Intervenção, Lx, INCM, 1993, p.84

[2]Idem, ibidem, p.84